Brasil em três tempos

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Tese, antítese, síntese: os três estágios do pensamento dialético sustentam uma visão crítica e sutilmente esperançosa sobre o atual impasse social brasileiro.  Em “Mãe só há uma”, Anna Muylaert reafirma o estudo da classe média brasileira como substrato de um cinema sensível, marcado pela encenação representativa de atos do cotidiano. Não se trata apenas da arte de contar uma história, ofício no qual a diretora se estabeleceu como uma das melhores do país, mas de produção de sentido, conferindo relevância decisiva à sua obra.

A história real na qual se inspira serve como ponto de partida para que Anna lance um olhar preciso para a crise de valores que está aí, nas redes, quando não batendo nas nossas portas. Para tanto, ela submete Pierre (Naomi Nero), jovem transgênero em pleno processo de afirmação identitária, à estreiteza sufocante de um núcleo familiar pequeno burguês.

Três décadas de regime democrático e algumas conquistas sociais produziram jovens confiantes, que não abaixam a cabeça por serem mulheres, gays ou periféricos. Representam essa geração Jéssica, a filha da empregada nordestina de “Que horas ela volta?”, e agora Pierre (Naomi Nero), com o qual a diretora dá um passo além. Seus interesses se definem já na cena de abertura, em festa onde Pierre dança e um rapaz o abraça por trás; no plano seguinte, ele está no banheiro transando com uma garota. A câmera olha para o casal de cima a baixo: ela, de frente, abraça Pierre; ele, de costas, a penetra de calcinha e cinta-liga.

O filme dá continuidade a esta ação carnal: direto, irreverente e com um senso de transgressão que traduz a efervescência dos dias de hoje. Por outro lado, a música antiga que rege o ambiente da festa abre para a perspectiva de que são situações não exatamente novas, mas que remetem à revolta e rompimento necessários a quem precisa definir seu lugar no mundo.

A cultura transgênero, no entanto, não é o prato principal de “Mãe só há uma”. Ainda que o travestismo não seja aceito no contexto onde Pierre se vê confinado, Anna parece estar mais interessada no exame familiar, foco no que há de visceral na relação de amor e controle entre mãe e filho. A urgência do debate se revela em planos instáveis e um despojamento formal que remetem a uma sensação de precariedade e falta de acabamento coerentes com a condição permissiva e periférica na qual vivem Pierre e a irmã mais nova, Jaqueline (Laís Dias). A despeito do peso que recai sobre os personagens, a atmosfera é ao mesmo tempo punk e leve, arejada.

Inicialmente tudo parece estar bem naquela rotina suburbana, da escola para o ensaio da banda, dali para casa. Trancado no banheiro, Pierre se maquia e se fotografa de calcinha, enquanto a mãe bate na porta. Há limites não transpostos. O abismo começa a se desenhar com a informação de que Pierre e sua irmã Jaqueline são de famílias diferentes e foram roubados na maternidade pela pessoa que julgavam ser sua mãe. Enquanto a menina é levada pela família biológica sob promessas de visitar a Disney, outro protótipo de alienação aguarda Pierre, cujo encontro com a nova família se dá em mesa de restaurante nervosamente organizada pelo pai biológico, interpretado por um Matheus Nachtergaele relegado a duas dimensões e discretamente maneirista.

A partir daí um novo personagem ganha profundidade, o irmão mais novo, Joca (Daniel Botelho), protótipo da criança branca condicionada, cujas precárias certezas se abalam com a chegada de Pierre. Destituído do papel de primogênito, dilemas estudantis entram em segundo plano e o garoto passa a observar a angustiante (e, no limite, cômica) condição de Pierre em seus acessos de autoafirmação.

Joca ainda protagoniza um curioso e pequeno episódio no colégio, onde desconta o “fora” de uma garota fazendo o mesmo com outra,de forma automática. Trata-se de um plano-sequência fixo com personagens que entram e saem de quadro, representando três situações de forma precisa e econômica. Ao participar de debate no lançamento do filme em São Paulo, o cartunista Laerte comparou essa passagem à dinâmica de uma história em quadrinhos.

De fato, e indo além, a estética do comic strip (a popular tirinha das páginas de jornal) se estende para o filme como um todo. Narrativa em três tempos, a busca por identificação imediata, poder de síntese e desfecho surpreendente. Daí entende-se a escolha por personagens inicialmente caricatos ou bidimensionais, como o pai interpretado por Nachtergaele. Ainda que a diretora não os negue compaixão ao coloca-los em situações difíceis, o drama só adquire profundidade ao correlacionar situações que em perspectiva geram efeito eletrizante.

O fato de ambas as mães serem interpretadas de forma quase irreconhecível pela mesma atriz, Dani Nefussi, remete simbolicamente ao processo de adolescentes que a certa altura não mais reconhecem na figura materna a função referencial que o guiou desde a infância. Basta um instante para a mãe se tornar figura opressora e casa, local inóspito.

O exame da influência materna na formação de uma sociedade ocupa lugar central na obra recente de Anna Muylaert e torna inevitável o retorno a “Que horas ela volta?”, longa anterior da diretora, cujo título em inglês The Second Mother está não por acaso conectado ao novo filme. Ambos dão a entender que laços genealógicos podem ser terríveis se o amor for pretexto para formas de controle e sofrimento. Concluir que “mãe é tudo igual” é uma tentação, mas nos filmes de Anna emerge a ideia de singularidade: mãe é quem cria; mãe é quem ama – para citar outros lugares comuns além do evocado pelo título.

Apesar da aproximação temática e da crença no poder transformador do conflito, são obras independentes, singulares na unidade visual, pontos de vista e abordagens.  Se naquele Jéssica é o corpo estranho num filme estável e crepuscular, neste o corpo estranho é a família de Pierre, num filme excitante e de desdobramentos imprevisíveis; se naquele a tônica é a do rompimento com o agente opressor, neste um horizonte conciliatório desponta, ainda que tênue, a partir da quebra do automatismo e do exercício da alteridade.

Em comum está o efeito catalizador dos conflitos que surgem em movimento imprevisto, com a chegada do novo. Em “Mãe só há uma”, este vem da reiteração da tragédia (para utilizar uma fala do próprio Pierre: “eu não escolhi ser roubado duas vezes”) e do reconhecimento do abismo entre si e o mundo. A tomada de consciência e a possibilidade emancipatória como consequência de conviver com o estranho, o diferente, o incongruente.

(Revista Teorema nº27, agosto de 2016)

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Janela aberta na Berlinale

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Ao contrário de 2015, quando quatro longas foram selecionados, não tivemos filmes pernambucanos na programação do Festival de Berlim. No entanto, o estado esteve representado pelo Janela Internacional de Cinema do Recife, que com o apoio do CCBA, enviou Luís Fernando Moura para conhecer o tradicional evento alemão, um dos mais antigos e importantes do mundo.

Presente de diferentes formas desde a primeira edição, Luís desempenhou no ano passado o importante papel de coordenador de programação do Janela. Encerro minha cobertura da Berlinale 2016 com a entrevista a seguir,  em que Luís fala sobre filmes, observações e conexões que podem repercutir em poucos meses, no Recife.

Esta foi sua primeira Berlinale. Que impressão teve sobre o festival?

Embora tenha sido minha primeira visita ao festival, a Berlinale é, como sabemos, um dos eventos de cinema acompanhados com mais lealdade e dedicação pela imprensa e pela crítica internacional. Mesmo à distância, é possível perceber suas características mais essenciais, e a visita ao festival confirmou várias delas. A programação, que é particularmente extensa e variada, tem como traço forte uma preocupação política que atravessa boa parte dos filmes, como se num permanente posicionamento curatorial do festival frente aos dilemas da política global. Isto se dá fortemente diante de questões geopolíticas mais visíveis no presente, como no caso do debate sobre povos refugiados, que tematizou de várias formas as sessões e é inclusive objeto do vencedor do Urso de Ouro, o italiano “Fuocoammare”. Aliás, o prêmio em si é um claro statement político. Essa postura pode ser percebida também, por exemplo, no caso já tradicional do programa Teddy, seção dedicada a filmes LGBT pioneira, que completou 30 anos com uma retrospectiva muito interessante de cinema queer.

Claro, estar pessoalmente no festival te leva a surpresas: no meu caso, a primeira foi me perceber num ambiente em que a indústria de cinema inteira está reunida. A simples “informação” de que “todos estão na Berlinale” é bem precisa, mas não dá conta de descrever a intensidade real desses encontros ao longo de uma semana que parece durar, no mínimo, umas três (com, como de praxe, pouquíssimas horas de sono). A segunda surpresa é meu souvenir pessoal: me deparar com um parque realmente deslumbrante de cinemas de rua. Eu recomendo a todos que puderem ir à Berlinale que experimentem sair da Potsdamer Platz, onde está o centro logístico e midiático do festival, e circular um pouco pelos cinemas que ficam alguns minutos mais distantes: o Kino International, a Akademie der Künste, o Delphi Filmpalast, o Zoo Palast, o Friedrichstadt-Palast, entre tantos outros. Cada novo cinema é um novo deslumbre com a paisagem exterior e interior das salas. Isso deveria inspirar a forma com que vivemos com os filmes em qualquer lugar.

Que filmes mais te marcaram? Algum deles poderá ser visto no Janela de Cinema?

Os dias depois de um festival vão te dando pistas daquilo que realmente fica como memória de uma experiência forte. Posso te dizer que, de imediato, tive um belo e inesperado encontro com o filme novo de Terrence Davies, “A Quiet Passion”, que passou fora de competição. É uma biopic de Emily Dickinson com uma profunda consciência do humor e do melodrama. Um filme simples e que preenche uma sala de cinema como poucos fazem. Os filmes que me deram a sensação de um grande momento estavam espalhados nas diversas mostras. Pode ser um clássico de 1974 restaurado como o alemão “Berlin-Harlem”, de Lothar Lambert, que passou na retrospectiva Teddy, ou alguns filmes novos supostamente menores, como o longa “Muito Romântico”, dos brasileiros Gustavo Jahn e Melissa Dulius, na programação do Forum Expanded. Há ainda as experiências épicas, como as 8 horas do filipino Lav Diaz em “A Lullaby to the Sorrowful Mystery”; impossível passar incólume. O Janela é um festival que acolhe filmes diversos em muitos sentidos, então certamente cada filme que achamos especial, seja um grande lançamento ou um filme pequeno e barato, pode encontrar um espaço na nossa programação. Mas é cedo ainda para bater martelos. Temos oito meses até a próxima edição. É importante, terminado o festival, acompanhar a trajetória dos filmes que nos chamam a atenção e ir descobrindo outros. Aí sim poderemos ter mais clareza para fazer escolhas e convites.

Em um festival com centenas de filmes como a Berlinale, que estratégia você usa para descobrir as obras mais interessantes?

A primeira coisa que tenho em mente é não ter receio de correr alguns riscos, ou vou me privar de fazer descobertas. É importante então circular pelas diversas mostras. Claro, há aqueles filmes imperdíveis, de cineastas que já acompanhamos. Há também aqueles filmes, pequenos ou grandes, sobre os quais se cria um burburinho na imprensa, na crítica e nos corredores do festival. Talvez isto seja algo importante: abrir os ouvidos durante o festival, trocar impressões com conhecidos entre uma sessão e outra. Alguém sempre tem sua própria descoberta pra compartilhar, e a Berlinale tem muitas reprises para a maior parte dos filmes. Provavelmente você vai ter mais uma chance de dar uma olhada naquele desconhecido que seu amigo elogiava na noite anterior. Vai lá e, já depois das 22h, após 12 horas de filmes, se desloca para ver um bonito longa estudantil como “A Road”, de um japonês de 21 anos. Ou vai acompanhar a sensacional programação da Semana da Crítica, que corre paralela à Berlinale. Mas, pelo que vi, o contrário também é verdade: há sempre um ou outro filme que você queria ver desde o início mas, feitas as escolhas necessárias, você vai ter de abrir mão. Pelo menos durante os dez dias de festival… Afinal, são centenas de filmes e apenas 24 horas por dia.

O Janela de Cinema tem em comum com o Festival de Berlim a programação simultânea e o olhar para o cinema do mundo. Que outras semelhanças e diferenças você enxerga entre os dois festivais?

De fato, tanto o Janela quanto a Berlinale tem como característica forte uma busca por olhares diversos, e frequentemente isto implica também origens diversas dos filmes. Ao mesmo tempo, ambos os festivais parecem se deixar contaminar pela vida das cidades onde estão inseridos, convidando o público a frequentar seus cinemas e tornando a sala de cinema um lugar de encontro entre vida local e imagens estrangeiras que, ali no festival, têm um impacto particular a essa relação. Naturalmente, os dilemas políticos de cada cidade terminam dando a tônica também de cada um dos festivais como manifesto público: a Berlinale, marcada pelas diversas fraturas da história europeia, que são cicatrizes fortes em Berlim e se manifestam na programação como uma plataforma de reconciliação. Ali se crê mesmo que os filmes podem, diretamente, mudar o mundo. Já o Janela parece tomar parte numa redescoberta do espaço público, surrado por processos de exploração típicos da América Latina, e que ganham genética própria numa cidade como o Recife. Essa descoberta tem como ressonância muito cristalina a evocação do cinema como caminho para que quebremos nossos próprios muros e possamos nos deslocar por outras paisagens e experiências.

Por outro lado, a Berlinale está no centro da indústria. É um evento gigante com muitos, muitos filmes. Nosso papel no Janela é mais modesto: queremos apontar um ou outro filme, mais de perto, e nos debruçar detidamente sobre cada um dos nossos visitantes. Potencializar mesmo o que oferece cada ponto de vista, cada sessão de cinema.

O barco e o olhar

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Selecionado para a seção Forum,  “Havarie” foi a mais amarga e desafiadora das sessões que assisti nesta Berlinale. O diretor alemão Philip Scheffner formulou uma abordagem à altura da gravidade da atual crise dos refugiados, levantando questionamentos que destoam do ranço esteril e piegas geralmente dedicados ao tema.

Para tanto, “Havarie” (avaria, em alemão) utiliza nada mais do que um vídeo amador e sinais de rádio para promover um tour de force onde a criação cinematográfica permite a percepção tanto da condição de fragilidade dos que enfrentam a travessia do Mediterrâneo, quanto de quem os observa, em imagens compartilhadas em outros mares, a internet.

Afeito à manipulação intelectual de imagens de arquivo, Scheffner disseca a tragédia em si, nos confinando em dispositivo formado por um vídeo do Youtube revertido em sua banalidade pelo efeito super slow motion (na proporção de um frame por segundo) e uma banda sonora formada por transmissões de rádio trocados entre um navio de refugiados e equipes de resgate.

Feito à distância, a partir de um navio cruzeiro, o vídeo tenta enquadrar um barco de refugiados à espera de resgate na costa espanhola.  O aspecto semicongelado da imagem causa estranhamento e produz náusea ao reduzir o barco a um borrão que assume na tela novas coordenadas.

“Havarie” é a síntese entre fantasmagoria exterior (visual, distante) e interior (sonora, subjetiva). Duas imagens imperfeitas, sujas e longe da alta definição do cinema profissional. É a baixa resolução como estética do abominável. E o tempo, severamente reconstruído, como carrasco de uma absurda sentença de morte.

Sentença que, transposta pelo filme, nos condena a compartilhar um olhar superior que recai milhares de vezes, como navalhas, sobre aquelas pessoas.

* visto no CinemaxX 8, Potsdamer Platz, em 20/02/2016

 

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Fogo no mar

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A premiação da Berlinale foi anunciada no último sábado, mas o festival terminou oficialmente no domingo, com o Kinotag. É  o dia do público, uma ótima forma de despedida para um evento que, apesar de investir no tapete vermelho, tem nas ruas a melhor vocação. Os números finais impressionam: 337 mil ingressos vendidos, um novo recorde nos 66 anos de festival..

O Kinotag também a última chance de ver filmes perdidos durante a semana, também conhecida como repescagem. Eu mesmo assisti quatro, em salas distantes do QG do festival (Potsdamer Platz), em deslocamentos que permitem sentir melhor a vibração da cidade.

Berlim muda rápido demais. Nos últimos anos, entre bairros gourmetizados, terrenos baldios e gruas de construção, foi possível observar o aumento do custo de vida e mais estrangeiros (os “auslander”) nas ruas e estações de metrô. Este ano encontrei alguns acampados em espaços públicos, à noite, em torno de fogueiras, como no filme que Felipe Bragança, “Escape from my eyes”, curta exibido no Forum da Berlinale 2015 que dramatiza o assédio de uma voluntária branca por um refugiado negro.

Somente ano passado a Alemanha recebeu mais de um milhão de pedidos de asilo. É o maior fluxo de imigrantes no país desde o fim da Segunda Guerra. Há mais refugiados sírios ali do que em toda a Europa. A direita voltou a crescer. Aumentam casos de xenofobia. O mais recente aconteceu na Saxônia, onde prédios que receberiam refugiados pegaram fogo, ao mesmo tempo em que a população local tentou impedir a ação dos bombeiros.

Daí se entende a Berlinale ter selecionado tantos filmes, estimulado debates e atividades em apoio a refugiados. Vencedor do Urso de Ouro, o documentário “Fuocoammare” narra situações paralelas na ilha italiana de Lampedusa: o influxo de centenas de milhares de refugiados que tem nela a porta de entrada para a Europa; e o cotidiano de uma família local, sustentada pela pesca.

O título alude aos acidentes que acontecem pelo combustível expelido pelo motor a diesel nas roupas dos refugiados. O diretor, Gianfranco Rossi, o pinçou da música popular  “Fuocoammare”, pedida no filme por uma senhora que cozinha enquanto roga para que o mau tempo permita que o marido possa pescar. A mesma rádio atualiza os ouvintes sobre os refugiados. A senhora lamenta com distanciamento, da sua cozinha, como se a tragédia não fosse no próprio quintal.

Se os filtros da realidade não permitem, o filme estabelece conexões, como no momento em que alterna entre a rotina policial e médica de triagem dos que sobreviveram ao Mediterrâneo e o cotidiano de um garoto nativo que vai à escola, ao médico e ensina um amigo a fabricar uma atiradeira. O menino ajusta a mira, tensiona e solta o elástico, em sons cortantes que dilaceram qualquer ingenuidade.

* filme visto no Haus Der Berliner Festpiele, Charlottenburg-Wilmersdorf, em 21/02/2016

Berlinale 66 – os premiados

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O Urso de Ouro foi para o italiano “Fuocoammare“, de Gianfranco Rosi, documentário sobre fugitivos que tentam entrar na Europa pela Ilha de Lampedusa. É incomum um filme de não-ficção ganhar o prêmio máximo em grandes festivais. É verdade que o também italiano “César deve morrer”, dos irmãos Taviani levou o Urso de Ouro em 2013, mas ali havia uma proposta híbrida de encenação com presidiários. E “Fuocoammare” é um filme 100% documental, que alterna entre o cotidiano de um morador da ilha, um garoto italiano alheio à estas situações e o resgate e triagem de refugiados africanos.

“Fuocoammare” não é o melhor filme da competição oficial da Berlinale e tampouco sobre a crise dos refugiados (dos que vi, gosto muito de “Havarie“). No entanto este é o principal tema não apenas da Berlinale, mas da Alemanha, o país que mais recebeu asilados na Europa. E Ursos políticos tem sido comuns nos últimos anos. Presidente do júri, Meryl Streep é uma atriz politicamente engajada, então entende-se a decisão, que privilegiou a dimensão estética nos demais prêmios.

É o caso da produção filipina com oito horas nada cansativas de duração, “A lullaby to the sorrowful mistery”, de Lav Diaz, que ganhou o Prêmio Alfred Bauer para filmes que abrem novas perspectivas. Em preto-e-branco fantástico, o filme narra a revolução filipina de 1896-98. Entre fantasmas, mitos e consequências, há belas reflexões sobre criação artística e o cinema enquanto ilusão compartilhada.

Independente do reconhecimento do júri já havia sido um grande acerto e uma demonstração de coragem por parte do festival em tê-lo selecionado para a mostra oficial competitiva. Já que o circuito comercial de cinemas jamais programará um filme com tamanha duração, cabe aos eventos – e posteriormente à internet, disponibilizar e repercutir esta obra cujo poder é, da primeira à última instância, o de renovar a crença na imagem cinematográfica.

Pessimistas (“Morte em Sarajevo” e o polonês “United States of Love”) ou otimistas (“L’avenir” e “Koletivitet”), os premiados refletem a seleção deste ano, formada por filmes que, espelhos ou martelos, recaem sobre mundos em convulsão.

Lista dos premiados

Mostra Oficial de Longas
Urso de Ouro: Fuocoammare (Itália), de Gianfranco Rosi
Grande Prêmio do Júri: Morte em Sarajevo (França, Bósnia e ), de Danis Tanović
Prêmio Alfred Bauer para filme que abre novas perspectivas: A Lullaby to the Sorrowful Mystery (Filipinas), de Lav Diaz
Direção: Mia Hansen-Løve por “L’avenir” (França)
Atriz: Trine Dyrholm por “Kollektivet” (Dinamarca), de Thomas Vinterberg
Ator: Majd Mastoura por “Hedi” (Tunísia), de Mohamed Ben Attia
Roteiro: Tomasz Wasilewski por “United States of Love” (Polônia), de Tomasz Wasilewski
Urso de Prata pela excepcional contribuição artística: Mark Lee Ping-Bing, pela fotografia de “Crosscurrent” (China), de Yang Chao
Melhor filme de estreia (€ 50,000 pelo GWFF): “Hedi” (Tunísia), de Mohamed Ben Attia

Competitiva de Curtas
Urso de Ouro: “Balada de um Batráquio” (Portugal), de Leonor Teles
Urso de Prata (prêmio do júri): “A Man Returned” (Inglaterra, Dinamarca, Holanda), de Mahdi Fleifel

Informações completas no site da Berlinale

Hotel Europa

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E a Berlinale vai chegando ao fim. Enquanto não sai o resultado do júri oficial, comissões paralelas anunciam os seus preferidos. Organizado pela Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci), o júri da crítica elegeu “Morte em Sarajevo”, de Danis Tanović, como o melhor da mostra oficial. Em 2013 o diretor bósnio já havia ganhado o prêmio especial do júri por “Um episódio na vida de um catador de ferro”.

Tanović volta a Berlim com uma produção França/Bósnia/Herzegovina que, a partir da história recente destes países, traça um retrato da Europa hoje.

O filme é ambientado em um grande hotel, que nervosamente se organiza para receber autoridades para atividades em torno do centenário da morte de Franz Ferdinand, o herdeiro do império austro-húngaro, assassinado em Sarajevo por um estudante sérvio. Ao episódio é atribuído o início da primeira guerra mundial.

A ação é paralela: enquanto o presidente da União Europeia repassa discurso na suíte presidencial e a TV entrevista especialistas na cobertura,  empregados do hotel planejam deflagrar uma greve.

Eles estão há dois meses sem salário, enquanto o diretor do hotel lida com credores para manter seu negócio. A situação sai de controle, dando a entender que democracia e direitos humanos são meros recursos de retórica.

Tanović fez um filme entre o humor e o cinismo, explorando a tese de que a história se repete, agora sob o registro de câmeras de TV ou de vigilância.

* visto no Berlinale Palast, Potsdamer Platz, em 15/02/2016

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“Muito romântico” e a arte de enxergar o invisível

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Melissa Dullius e Gustavo Jahn estrearam hoje seu primeiro longa metragem, “Muito Romântico”, na seção Forum Expanded da Berlinale. No filme, o casal de brasileiros radicado há dez anos em Berlim faz de si e da própria história a matéria prima para uma obra onde o suporte analógico é tão condicionante para a narrativa quanto o próprio conteúdo.

Em 2007, quando chegaram a Berlim, Melissa e Gustavo criaram o selo Distruktur, tendo alguns de seus trabalhos exibidos em festivais brasileiros. Eles já haviam participado da Berlinale com o curta “Triangulum” (2009, no mesmo Forum Expanded) e como parte do elenco de “Os residentes”, de Tiago Mata Machado (Mostra Forum, 2011). Em 2006 Melissa também participou do programa Talents, voltado a jovens profissionais do cinema. Agora, seu primeiro longa é selecionado pelo festival.

De cruzar os mares em navio cargueiro a diferentes apartamentos alugados na capital alemã,”Muito romântico”  reinventa  a trajetória de Melissa e Gustavo na medida em que suas figuras encontram dimensão própria na emulsão química do celuloide reordenado na mesa de montagem.

Música, literatura e artes plásticas potencializam a experiência, que ganha sentido no deslocamento geográfico e existencial. O filme se constrói sem muitas regras, tendo o fluxo de cores e texturas do suporte analógico como propulsor principal, e a condição do estrangeiro como elemento libertador e necessário para quebrar o automatismo do olhar. E com isso, enxergar o invisível.

* visto no CinemaxX 8, Postsamer Platz, em 15/02/2016

Mãe só há uma

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Para quem já conhece o trabalho de Anna Muylaert, é impossível assistir “Mãe só há uma” sem retornar a “Que horas ela volta?”. Neles a diretora paulista adota abordagens diferentes para criticar o mesmo universo: o da classe média tradicional brasileira.

Agora é possível sentir a urgência de ampliar a denúncia da família conservadora como dispositivo idiotizante e aprisionador, colocada anteriormente com uma precisão formal dispensada por Anna em sua nova obra, que traduz a irreverência e liberdade sexual da juventude em movimentos de câmera instáveis, imprevisíveis, conferindo ao filme leveza e vivacidade que jamais seriam alcançados pelos planos fixos, penumbras e tons pasteis da produção anterior.

A mudança estética remete a uma interessante inversão de pontos de vista. Se Jéssica é o elemento estranho a invadir e desestabilizar o campo sóbrio e minado da burguesia paulistana, em “Mãe só há uma”, uma família parecida invade o mundo liberto de Pierre (Naomi Nero), jovem transgênero e suburbano, que vive a plenitude dos 17 anos na base do sexo, drogas e rock’n’roll.

Um dia ele descobre que seu nome não é Pierre: recém-nascido, foi roubado na maternidade. Reintegrado aos pais biológicos (Matheus Nachtergaele e Dani Nefusi), o garoto se recusa a entrar na gaiola oferecida pelos pais. Questiona o jogo da família tradicional e desafia visceralmente limites de convivência,  permitindo ao filme bons momentos, tanto de humor quanto de tensão dramática.

Nas cinco sessões promovidas pela Berlinale, “Mãe só há uma” recebe votos do público, que em 2015 elegeu “Que horas ela volta?” como o melhor da Mostra Panorama. Além disso, ele concorre ao Teddy Awards, dedicado a filmes de temática gay, independente da mostra. Não será surpresa se ganhar.

* Visto no Colloseum Kino, Prenzlauerberg, em 17/02/2016

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Chi-Raq / Where to invade next

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Disse e repito: tomadas de consciência, um dos temas desta Berlinale.

O desenho de armas formando o mapa dos Estados Unidos é a imagem de abertura para “Chi-Raq”, o novo filme de Spike Lee, exibido ontem, fora de competição, na Mostra Oficial da Berlinale. Em seguida surge a informação de que no sudoeste de Chicago o número de assassinatos nos últimos 15 anos supera o de soldados norte-americanos nas guerras do Afeganistão e Iraque.

Daí o apelido, adotado também pelo filme, que transpõe o texto “Lysistrata”, de Aristófanes para o momento atual da tragédia afro-americana.  Chi-raq é rapper e líder dos espartanos (Nick Canon) que transformam o sudoeste da cidade em zona de guerra. Ciclope (Wesley Snipes) comanda os troianos. Samuel Jackson é um personagem à parte da trama, que contextualiza as situações.

A postura crítica de Spike Lee não é voltada apenas aos brancos ricos e conservadores, mas aos próprios negros, que entram no jogo da violência. Tem sido assim desde que Spike Lee lançou as bases de seu cinema combativo. Já na abertura de “Faça a coisa certa”, a atriz Rosie Perez dança ao som de “Fight the Power”. E são exatamente as mulheres quem iniciam a insurreição, deflagrada pela morte de uma criança negra, assassinada por uma bala perdida.

Orientada por uma vizinha intelectual (Angela Bassett), Lysistrata  (“Teyonah Parris”, de Dear White People), a namorada de Chi-Raq, inicia uma greve de sexo que se espalha pelo planeta. “No peace, no pussy” (há uma sequência no Brasil, em que garotas gritam em SP “sem paz, sem xana”). Simplista ou não, o posicionamento provoca boas discussões sobre gênero, raça e exclusão social, não apenas nos Estados Unidos.

Interessante observar Lysistrata  como uma nova encarnação de Foxy Brown, personagem símbolo do Blaxploitation nos anos 1970, referência básica do ativismo negro na seara cinematográfica. No entanto, a forma adotada por Spike Lee é diversa, se valendo de recursos do melodrama e da comédia teatral para obter o efeito contagiante pretendido e por vezes alcançado, principalmente nas performances musicais.

Invasões bárbaras – Logo após “Chi-Raq” foi exibido para a imprensa “Where to invade next”, novo panfleto de Michael Moore sobre as precariedades do sistema social norte-americano. Há questões parecidas com as levantadas por Spike Lee, como o culto às armas e o massacre da população negra, estabelecendo pontos de vista absolutamente díspares (Moore é americano branco que resolveu colocar a cabeça fora da manada) sobre os mesmos problemas.

Sob a metáfora da guerra, a ideia de Moore é “invadir” outros países em busca de repatriar boas ideias surgidas nos próprios EUA, mas nunca colocadas na prática por lá. De forma bastante manipulativa e por vezes cômica, o filme quer evidenciar as contradições de um país que se autoproclama o melhor do mundo, listando exemplos de como a Itália, França, Alemanha, Noruega, Islândia e a Tunísia estão à frente nos direitos trabalhistas, de gênero, das crianças e dos presidiários.

Se comparar com a Europa é algo comum na classe média brasileira, mas notoriamente raro nos EUA. Independente da eficácia ou superficialidade do  seu discurso, Moore assume postura otimista. Usa o exemplo do Muro de Berlim e diz que vê seus filmes como martelos que em algum momento podem abrir buracos nos muros. Em termos, ele tem razão. Martelos não são nada sutis.

* Filmes vistos no CinemaxX 9, Potsdamer Platz, em 16/02/2016

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O que está por vir

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Um dos temas da Berlinale este ano parece ser a tomada de consciência como prerrogativa para mudanças pessoais ou coletivas – quando não as duas.

Em “L’ avenir” (O que está por vir), a diretora francesa Mia Hansen-Løve exercita um olhar generoso sobre uma mulher bastante ativa (Isabelle Huppert), professora de filosofia sufocada entre compromissos acadêmicos e familiares.

O tom nao é melancólico nem otimista, mas de afetividade tranquila, o filme situa a protagonista no espectro entre a Geração Z e a de Maio de 68.

Entre lidar com alunos em greve, um casamento em crise e cuidar da mãe idosa, Nathalie encontra seu devir e nele a oportunidade de emancipação. Os encontros com o jovem pupilo (Roman Kolinka) inspiram horizontes e apontam para um novo ciclo.

O mundo não está bem, e a imagem de Isabelle Huppert correndo angustiada pelas ruas de Paris é uma boa forma de representar isso.

Mas por outro lado está em movimento ininterrupto, e Rousseau, Schopenhauer, Proudhon e música folk surgem entre as tantas referências para o reencontro existencial.

Parece complicado mas Hansen-Løve teve a sensibilidade de colocar pontos de interrogação nos lugares certos, gerando um filme fluente, ao mesmo tempo profundo e acessível.

* Visto no Berlinale Palast, Potsdamer Platz, em 13/02/2016

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Boris sem Beatrice / May we sleep soundly

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Denis Côté volta à competição oficial de Berlim com “Boris sem Beatrice”. Assim como em “Vic + Flo viram um urso”, que rendeu a ele o prêmio melhor direção em 2013, Côté volta a olhar para um casal no campo, como fossem animais de laboratório.

O filme inicia com um helicóptero que voa rente ao chão, tendo à sua frente um homem de meia idade que o encara de volta, impassível.

Este homem é Boris, industrial russo arrogante, infiel e vaidoso. E o helicóptero pode ser o próprio filme, que observa e ameaça, ressaltando o som frio e cortante das hélices.

O realismo é quebrado quando entra em cena um senhor misterioso, cínico e teatral, que enumera os defeitos de Boris e condiciona sua  mudança de comportamento à melhora da sua esposa Beatrice, em depressão.

Ao inserir o artifício de um personagem onisciente, que julga personagens e interfere no próprio enredo, a sanha manipulativa de Côté aponta para uma peculiar descrença no ser humano, refém das tiranias do ego.

A possibilidade de redenção vem acompanhada de uma instabilidade narrativa, de estranhamento e desconforto proporcionais à realidade com que dialoga.

A doentia postura dos donos do poder fica ainda mais evidente quando em contexto com a grandiosidade dos landscapes canadenses, para onde derivam os olhos a cada encruzilhada existencial.

Semana da Crítica – Denis Côté também apresentou um novo curta, exibido ontem na 2ª Semana da Crítica de Berlim. Trata-se de um pequeno evento paralelo e independente, um contraponto provocativo ao gigantismo da Berlinale.

“May we sleep soundly” consiste em planos subjetivos de um suposto invasor de casas no inverno canadense.  Uma câmera trêmula e afoita entra e sai de ambientes privados, onde pessoas dormem. Gatos e cães observam em silêncio, como cúmplices.

O desenho de som evidencia passos, respiração e outros movimentos do invasor, o que aumenta o sentimento de perigo e medo de que algo ruim acontece no momento de nossa maior vulnerabilidade – o sono.

* “Boris sem Beatrice visto no CinemaxX 9, Postdamer Platz, em 12/02/2016
** “May we sleep soundly” visto no Hackescher Höfe Kino 1, Mitte, em 14/02/2016

Ilusões perdidas

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Após uma sequência de filmes introspectivos e de humor sutil, em “Hail Caesar!” os Irmãos Coen retornam à vibração amalucada de “Queime depois de ler” e “E aí meu irmão, cadê você?”, direcionando seu senso de ironia e subversão para prestar homenagem à Hollywood dos anos 1950.

Ao estabelecer regras próprias para a narrativa e mise-en-scène da antiga fábrica dos sonhos, várias pistas reafirmam sua arte como um corpo estranho fincado na indústria cinematográfica.

Em “Hail Caesar!”, a devoção pelo cinema de gênero encontra na alternância o dispositivo principal. Entre o noir, o musical, o épico e o faroeste, é como se o filme trocasse de figurino de forma impecável, a cada 10 minutos. Não se trata de mistura, mas de uma colagem muito bem definida de referências, que em algum momento esborram umas nas outras, quebrando a ilusão do entretenimento.

A ação se reveza em diferentes estúdios: George Clooney é um ator raptado durante as filmagens de um épico romano; outra produção traz Scarlett Johansson e Channing Tatum em incríveis performances musicais; e Alden Ehenreich como um jovem ator de faroeste desastradamente escalado para protagonizar um drama.

Cabe a um executivo da Capitol Studios (Josh Brolin) lidar com o sumiço de Clooney enquanto impede duas jornalistas de celebridade gêmeas (Tilda Switon) de inventar fofocas sobre os atores. Vestido de gladiador, Clooney evoca Kirk Douglas; por sua vez Brolin incorpora Eddie “The fixer” Mannix, personagem real que tinha a missão de manter a vida privada dos famosos longe dos tabloides.

Além das coreografias de Johansson e Tatum, “Hail Caesar!” compõe uma representação fascinante e tresloucada da “ameaça comunista” em Hollywood, foco em um grupo de roteiristas convictos em acelerar o processo revolucionário. A impressão é a de visitar um museu temático de personagens caricatos que não deixaram de existir: apenas se renovaram.

* visto no CinemaxX 3, Potsdamer Platz, em 11/02/2016

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Pedalando sobre o muro

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O mundo árabe sempre teve seu espaço, mas este ano está com presença especial na Berlinale. Como resposta ao grande influxo de refugiados sírios (somente em Berlim são 80 mil) o festival preparou uma campanha de doação, programas de estágio e ingressos com preços reduzidos para dar as boas vindas aos novos imigrantes.

Um dia antes da abertura oficial, um filme libanês foi o escolhido para a abertura da seção Forum Expanded, criada nos anos 1990 para abrigar obras de cinema expandido. Faz parte do Fórum Internacional do Novo Cinema, a parte mais ousada da Berlinale, de acordo com o próprio festival, dedicada a “avant garde, trabalhos experimentais, ensaios, observações de longo prazo, de cunho político e paisagens cinematográficas a ser descobertas”.

Fui para o evento de bicicleta, cruzando fragmentos e trechos do muro de Berlim demarcados no chão, sentindo o frágil equilíbrio, condicionado ao movimento.

Juntos, “Al Marhala Al Rabiaa” (The Fourth Stage), seguido da leitura “When the Ventriloquist Came and Spoke to Me”, pelo próprio diretor Ahmad Ghossein, formam uma só obra, em torno da influência do grupo paramilitar Hezbolah no sul do Líbano.

A partir do encontro de Ahmad com um mágico de sua infância, o filme intercala imagens aéreas com performances artísticas em ambientes devastados pelo conflito com Israel em 2006. O efeito é melancólico, de um humanismo pós-apocalíptico.

Não por acaso o enfrentamento da realidade e seus fantasmas é o tema proposto pelo Forum Expanded 2016. “Enquanto países estão se militarizando mais. Por nosso lado, buscamos a arte como forma de desmilitarização”, disse um dos curadores.

Na volta, cruzando calçadas e ruas adjacentes ao Potsdamer Platz, olhei para aquele ambiente inóspito por excelência, antes por guerras, e hoje por um centro internacional de consumo.  Se o velho mágico e seu boneco vivessem ali e não no Líbano, a solidão seria a mesma.

*filme visto no Akademie Der Kunste, Berlin-Tiergarten, em 10/02/2016

Berlim 66

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Começou o 66º Festival de Berlim, tendo como filme de abertura “Hail Caesar”, uma bem-humorada e louca declaração de amor dos Irmãos Coen ao sistema de estúdios hollywoodiano dos anos 1950. Ontem à noite, George Clooney, Tilda Swinton, Josh Brolin e Channing Tatum cruzaram o tapete vermelho do Berlinale Palast, satisfazendo público e imprensa de celebridades.

Em poucos dias, também fora de competição, outro filme norte-americano deve fazer seu barulho: “Chi-Raq”, em que Spike Lee adapta Aristófanes para a realidade das gangues de Chicago. No elenco Wesley Snipes, Samuel Jackson e John Cusack. Semanas atrás, Spike Lee criticou o Oscar pela ausência de minorias raciais entre os indicados. Vejamos como será sua passagem por Berlim, uma semana antes da premiação da Academia.

Na competição pelo Urso de Ouro estão, entre outros, o filipino Lav Diaz (novo filme com desafiantes 485 minutos), o canadense Denis Côté (Urso de Prata em 2013), o dinamarquês Thomas Vintenberg e os franceses Mia Hansen-Løve e André Téchiné. No júri estão Meryl Streep (presidente), a fotógrafa francesa Brigitte Lacombe, a atriz italiana Alba Rohrwacher e o diretor polonês Małgorzata Szumowska, os atores Clive Owen e Lars Eldinger e o crítico de cinema inglês Nick James.

Mesmo fora da competição oficial o Brasil está bem representado nesta Berlinale, com três longas na mostra Panorama (“Curumim”, de Marcos Prado; “Mãe só há uma”, de Anna Muylaert; e “Antes o tempo não acabava”, de Sérgio Andrade), um longa na seção Forum Expanded (“Muito romântico”, de Gustavo Jahn e Melissa Dullius – em coprodução com a Alemanha) e dois curtas (“Das Águas que passam”, de Diego Zon – na seção Berlinale Shorts; e “Ruína”, de Gabraz Sana, no Forum Expanded).

No total são 434 filmes, em quase mil sessões de cinema. Entre os clássicos teremos “A morte cansada” (Der Müde Tod, 1921), de Fritz Lang; “Fat City” (1972), de John Ford; “A filha do Nilo” (1987), de Hou Hsiao-hsien; e “The Road Back” (1937), de James Whale; além de uma sessão em homenagem a David Bowie, “O homem que caiu na Terra” (1976), e outra a Ettore Scola, “O Baile” (1983 – Urso de Prata em Berlim). Nada mal.

Como de praxe em Berlim, há o pano de fundo político. Mudanças globais e locais estão em curso e a ambição de oferecer território comum para estes temas condiz com a dimensão da Berlinale – um festival gigante, o maior do mundo em números absolutos, ocupando quase todos os espaços de exibição da cidade e adaptando outros, como o monumental Friedrichstadt Palast.

Ano 6 – Seis é o número desta edição. Além da própria idade do festival fundado em 1951, um dos mais antigos do mundo, a retrospectiva deste ano olha para a produção germânica de 1966, em comemoração aos 50 anos do Cinema Novo Alemão. Criado em 1986, o Teddy Awards, prêmio pioneiro do cinema queer, por sua vez completa 30 anos. Por coincidência, é também o meu sexto festival, desta vez alimentando um blog exclusivo para o Centro Cultural Brasil Alemanha, no Recife, em parceria com o Goethe Institut.

Olhar de Cinema: um festival como poucos

Storm Children, de Lav Diaz
Storm Children, de Lav Diaz

Curitiba (PR) – O 4º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba terminou na última quinta, comemorando publico recorde (em torno de 20 mil pessoas) e premiando o eslovaco “Koza”, de Ivan Ostrochovský, como o melhor da competição oficial de longas. Entre os curtas estão os brasileiros “A festa e os cães”, de Leonardo Mouramateus, e “Nova Dubai”, de Gustavo Vinagre.

Coerente com o recorte curatorial, o resultado confirma a opção do festival pelo cinema contemporâneo praticado por autores (ou cinematografias) jovens, que compartilham gosto por narrativas não convencionais – o chamado cinema de risco.

Condecorado com uma menção honrosa, o longa cearense “A misteriosa morte de Pérola”, de Guto Parente, coloca em termos de cinema fantástico o conceito de que todo filme é um documentário sobre a ação da morte, a respirar entre texturas imperfeitas de fitas magnéticas e pixels em alta definição digital.

Seu caráter experimental se dá não apenas por promover a convivência estética entre diferentes suportes de vídeo utilizados nas últimas décadas, mas pelo uso do som como estímulo para uma percepção instável e perturbada de um mundo mediado por imagens em movimento.

Passou batido pelos júris um filme bastante digno de atenção, “Storm Children – Book One”, do filipino Lav Diaz, uma composição que se sustenta em sequência de planos monocromáticos belíssimos e de longa duração, aproximando a experiência cinematográfica a do transe existencial. Este, junto aos portugueses “João Bénard da Costa – outros amarão as coisas que amei” e “Rabo de Peixe”, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, estão na minha lista dos melhores filmes do Olhar de Cinema 2015.

Outro acerto do festival deste ano foi a criação da mostra Olhar Clássico, espaço dedicado à filmes que marcaram a história do cinema e já estavam no festival de forma dispersa, como “Aguirre”, de Herzog, que abriu o festival em 2013. É preciso registrar a experiência de assistir a “Stomboli” (1950), de Roberto Rossellini, em cópia restaurada e apresentada pelo seu filho Enzo em vídeo especialmente gravado para o festival. Uma sessão grandiosa, que provoca e inspira ao inserir uma obra-prima na grade anestesiada de um cinema de shopping.

Assim, sob a noção de que não há como avançar sem articular o frescor do presente com lições do passado, o Olhar de Cinema promove um sopro de renovação no panorama brasileiro de festivais. Curioso que essa consciência surja não de eventos milionários e tradicionais, mas de um corpo nascente. Como ele, há poucos.

(O Diário do Norte do Paraná, 20/06/2015)

Os filmes estão vivos

“João Bénard da Costa – Outros amarão as coisas que eu amei”, de Manuel Mozos
“João Bénard da Costa – Outros amarão as coisas que eu amei”, de Manuel Mozos

Curitiba (PR) – Há algo de sádico por parte da organização do 4º Olhar de Cinema em programar quase cem filmes em oito dias. Ainda que com duas sessões para cada título, considerando o cinéfilo mais dedicado, é possível assistir apenas a dois quintos da programação. Tudo bem que o Festival de Berlim, cujo modelo inspira o evento paranaense, faça o mesmo com 400 filmes em dezenas de salas. Seu gigantismo, porém, supõe rendição prévia. Em Curitiba, a programação parece bem mais ao alcance, fazendo de cada escolha uma mistura de dor e satisfação.

Exceto pela ficção libanesa “O Vale”, que traduz em termos de cinema a frágil condição de um país rodeado de conflitos, no último fim de semana meu recorte se definiu entre filmes clássicos, um contemporâneo que dialoga com imagens de arquivo e um achado de arqueologia cinéfila: imagens inéditas feitas por Glauber Rocha no norte da África. Com 40 minutos de duração, “A vida é estranha” ficou por 42 anos na estante de Mossa Bildner, musicista norte-americana radicada em Curitiba, até que fosse restaurado digitalmente e exibido pelo Olhar de Cinema.

Trata-se de um registro de viagem ao Marrocos feita por Glauber e Mossa, namorados em 1973, em imagens cujo valor não se mede em si, mas pelo fato de terem sido filmadas por um dos mais importantes diretores da história. Com uma câmera Super 8 na mão, Glauber observa a vida cidade de Essaouira: paisagens, objetos, pessoas e costumes. Por sua vez, Mossa flagra o namorado numa barbearia, de onde sai, gordo e feliz, em direção à rua. Um Glauber-Rei no mundo árabe norte-africano.

A qualidade das imagens é bastante precária. Foram digitalizadas a partir de suporte magnético (VHS), o que reduziu pessoas em vultos, borrões coloridos, algumas com rostos indecifráveis, tornando o ato de olhar para o passado uma experiência ainda mais fantasmagórica. Montada durante a restauração, a banda sonora é formada por três blocos musicais, um com percussão afro, outro com uma ária desconstruída e um texto de Clarice Lispector cantado por Mossa em tom melancólico, sobre finitude e permanência.

Após a sessão, ela disse que na época Glauber estava bastante inspirado no livro “The Wild Palms”, de William Faulkner, a partir do qual faria o “filme de sua vida”. Em determinado momento  de “A vida é estranha”, Glauber filma o vento batendo nas palmeiras, o que para Mossa seria uma indicação para o filme que nunca aconteceu.

“Johnny Guitar”, de Nicholas Ray

O culto por cineastas e imagens de arquivo também se manifesta no documentário português “João Bénard da Costa – Outros amarão as coisas que eu amei”. Nele, Manuel Mozos biografa Bénard, que por 18 anos administrou a Cinemateca Portuguesa, através do seu amor por filmes, livros e pinturas, que moldaram um sensível entendimento da vida.  Não por acaso, um texto seu sobre “Johnny Guitar” (1954), está no catálogo do Olhar de Cinema, que programou o filme de Nicholas Ray na seção de clássicos. “De ‘Johnny Guitar’ só sou capaz de falar delirando”, escreve Bénard, sobre seu preferido.

“Sindicato de Ladrões”, outro ótimo filme de 1954, foi exibido em Curitiba em versão restaurada. Este, em vez do vibrante technicolor, foi concebido em preto e branco, bastante conveniente com o espírito de paranoia e caça ao comunismo em Hollywood naquele período. Diretor do filme, Elia Kazan delatou oito colegas filiados ao partido (ele mesmo foi um), ganhando com isso a fama de traidor. Mais do que uma autodefesa, o filme estrelado por Marlon Brando revela um artista em pleno domínio de sua expressão. Sua abordagem ao mesmo tempo crua e poética do submundo gângster influenciou diretamente cineastas da geração seguinte, como Francis Ford Coppola e Martin Scorsese.

Máquinas de matar – A imagem de uma cobra partida ao meio, ainda viva no asfalto quente de uma estrada, dá início ao filme libanês “O Vale” (The Valley), de Ghassan Salhab. Ela foi “atropelada” por um carro que explodiu entre as pedras do Vale do Bekaa. Dele sai um sobrevivente, que ganhou várias marcas no corpo e perdeu a memória pessoal. Acolhido por um grupo de traficantes, ele traz no ombro uma grande ferida, que apesar do curativo, sangrará ao longo da história.

“O Vale”, de Ghassan Salhab

Repleto de símbolos, o filme de Salhab olha consternado para um país cuja beleza contrasta com o mal estar de guerras que se estendem por séculos. O frágil equilíbrio que repousa atualmente no Líbano é quebrado pela ficção, que traduz de maneira precisa uma condição existencial equilibrada no afã religioso (ali está a antiga Palestina, berço de Jesus Cristo), a beleza cenográfica e a atual situação de ilha cercada de conflitos na Síria, Irã e Israel.

Curioso que as explosões das minas de prata que deflagram a narrativa de “Johnny Guitar” literalmente ecoem no filme de Salhab, formando com a performance dos atores e música original uma aterradora composição sobre a miséria humana já apontada por Pier Paolo Pasolini: nos tornamos máquinas de matar. Os filmes, no entanto, estão vivos.

(O Diário do Norte do Paraná, 16/06/2015)

A subversão do olhar

"Rabo de Peixe", de Joaquim Pinto e Nuno Leonel
“Rabo de Peixe”, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel

Curitiba (PR) – Há muito de estimulante no 4º Olhar de Cinema. Em vez de se curvar à lógica dos shoppings onde está sediado, o festival a coloca de cabeça para baixo, quebrando a padronização deste ambiente com ideias, pessoas e filmes que jamais estariam circulando ali no resto do ano. Tome como exemplo o documentário português “Rabo de Peixe”, exibido na noite de abertura para mais de mil pessoas, em três salas lotadas. No dia seguinte, mais subversões com Andrea Tonacci (“Bang Bang”, 1971) e o mais recente manifesto do decano Jean-Marie Straub, “Kommunisten”, em que concilia trechos de filmes anteriores com novas gravações. Ótimas provocações para que o circuito comercial saia do piloto automático.

Como no excelente “E agora, lembra-me?”, Joaquim Pinto e Nuno Leonel confirmam em “Rabo de Peixe” uma impressionante habilidade no manejo da expressão cinematográfica, elevando a manipulação de imagens, palavras e sons a um tocante patamar poético e existencial. Desta vez, eles o fazem ao revisitar arquivos gravados no início dos anos 2000, durante temporada em Rabo de Peixe, comunidade de pescadores situada no arquipélago de Açores. A assim intitulada “versão dos autores” vem como edição definitiva para um projeto concebido e veiculado para a TV da época.

A forma tranquila e romântica com que os diretores narram encontros e acontecimentos amplificam suas visões sobre aquela comunidade, que convive de maneira bem mais simples, livre e solta do que estamos acostumados nos grandes centros e até mesmo naquelas paragens – eles descrevem Rabo de Peixe como uma ilha dentro da ilha.
Joaquim e Nuno trabalham por uma expressão que não apenas reflete, mas integra o existir em sua plenitude, o estar aqui e agora a despeito de jogos, disfarces ou vícios. Inseparáveis, vida e filme são matéria prima e combustível para percepções, pensamentos e insights sobre si, o outro e o mundo. Diferente de produções ocamente dilatadas de alguns diretores contemporâneos e, ou no outro extremo, opressivamente cartesianas e funcionais, “Rabo de Peixe” é de uma liberdade narrativa contagiante, que permite tanto à obra quanto ao espectador o respiro necessário para que o cinema possa se manifestar.

Cinema e cidade – Na quinta, abrindo os seminários de cinema, foram discutidas as relações entre cinema e arquitetura em mesa intitulada “A marcha da modernidade”. Observar a interação entre arquitetura e seres humanos faz parte da história do cinema e ultimamente tem sido exercício intenso em filmes de países em que a paisagem urbana sofre rápidas alterações, como na Rússia, China e Brasil. No debate, o arquiteto e diretor paranaense Fábio Allon tratou da influência da arquitetura na criação de cenários, passando por George Méliès, expressionismo alemão até se deter em Jacques Tati, cuja filmografia está sendo mostrada em retrospectiva promovida pelo festival.

Olhar o Cinema

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Imersão. Este requisito indispensável para se assistir a um filme, é também a melhor forma de experimentar o Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. A quarta edição do evento, um dos melhores do Brasil, começa nesta quarta (10), ocupando três locais da capital paranaense: o Espaço Itaú (Shopping Crystal), o Cinesystem Livraria Cultura (Shopping Curitiba) e a Cinemateca de Curitiba. Além de Curitiba, doze cidades do Paraná recebem o Olhar Itinerante, programação especial de seis curtas metragens. Em Maringá, além do auditório do Sesi (Zona 5), cinco escolas públicas participam da ação.

Em cobertura exclusiva para O Diário do Norte do Paraná, acompanharei a programação, que este traz 91 obras de 32 países, distribuídas em oito mostras que seguem até o próximo dia 18. O filme de abertura será o documentário português “Rabo de Peixe”, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, lançado no último Festival de Berlim e inédito no Brasil.

Cerca de 15 convidados internacionais estarão no Olhar deste ano. Entre eles Lisandro Alonso, que vem ao país lançar seu novo longa, “Jauja”, uma co-produção Argentina / Brasil premiada pela crítica internacional no Festival de Cannes de 2014. O norte-americano Nathan Silver também estará no festival, onde apresenta seus longas na Mostra Foco, dedicada a apresentar novos realizadores ao público brasileiro.

Memória – Este ano, além de uma retrospectiva do diretor francês Jacques Tati e filmes essenciais de Elia Kazan, Roberto Rossellini, Nicholas Ray, Hayao Miyasaki e Andrea Tonacci, há “A vida é estranha”, registro inédito do cineasta Glauber Rocha durante viagem ao Marrocos nos anos 1970. Com 39 minutos de duração, “A vida é estranha” foi descoberto por dois jornalistas paranaenses, na casa da musicista Mossa Bildner, que atualmente mora em Curitiba.

Ao saber da existência do arquivo, filmado em Super 8 e transposto para uma única fita VHS, a produção do festival assumiu sua restauração, correção de cor e finalização em 5.1. Será exibido publicamente pela primeira vez na próxima sexta-feira, dia 12, no Cinesystem. A segunda sessão será dia 17, no Espaço Itaú.

O que mais podemos esperar do Olhar 2015? “A melhor edição de todas”, diz o diretor do festival, Aly Muritiba. “A seleção está muito consistente, com realizadores nacionais e internacionais presentes para debater seus filmes”. Aly também destaca o Mercado de Cinema, uma das novidades deste ano, com encontros de negócios, seminários, laboratório de projetos e oficinas.

(O Diário do Norte do Paraná, 10/06/2015)

Interior: campo fértil para o cinema

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Diferentemente das capitais, a maior parte das cidades do interior brasileiro não viveu a transição dos cinemas de rua para as salas de shopping: passaram as últimas décadas sem projetos de exibição. Isso tem mudado com o ressurgimento de cineclubes, mostras e festivais de cinema, que aos poucos estimulam a volta da cinefilia em cidades com menos de 100 mil habitantes.

Apenas na última semana, duas novas mostras surgiram no interior de Pernambuco. Afogados da Ingazeira é berço da Mostra Pajeú de Cinema, realizada no histórico Cine São José; em Belo Jardim, região agreste, nasce o 1º Cine Jardim. Este último exibiu quase uma centena de filmes brasileiros e estrangeiros e trouxe convidados de diferentes estados, promovendo um enriquecedor encontro entre público e realizadores como Leonardo Cata Preta, Cavi Borges, Rafael Jardim, Lisandro Santos e Lucas Sá.

De acordo com Leo Tabosa, diretor do Cine Jardim, a proposta deste primeiro ano é abrir janelas. Coerente com o tema, ele selecionou curtas e longas de diferentes gêneros e técnicas, colocando no mesmo programa filmes locais, nacionais e estrangeiros. Outro ponto a favor, o cinema de animação ocupa lugar de destaque sem ser trancado em programa à parte, evitando o gueto comum a tantos festivais. O cinema infantil teve espaço nas manhãs; à tarde, a mostra de curtas; e à noite, longas. Todos dialogam de formas próprias com os temas da diversidade social, sexual e ambiental.

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Mural relembra cinemas de rua e filme rodado em Belo Jardim

Ao longo do século 20 vários cinemas existiram em Belo Jardim. Um deles funcionava onde hoje é o Empório Nordestino, restaurante oficial do Cine Jardim. É tentador imaginar uma sessão-memória neste espaço – quem sabe na próxima edição. Outra possibilidade, cogita Leo, é fazer a sessão noturna ao ar livre, ocupando a praça em frente ao Cine Teatro Cultura, antigo anexo da fábrica de mariola Ceci, fundada nos anos 1930 pela família Moura, a mesma que hoje patrocina o evento.

O projeto do Cine Teatro, que prevê a fundação de um cineclube, é uma bela inciativa. No entanto, a sala, que comporta em torno de 120 pessoas, clama por ajustes técnicos e arquitetônicos para que os filmes cheguem à tela da maneira correta. A atividade reflexiva seria outra lacuna importante a ser preenchida, completando o sentido do cinema com debates, mesas e seminários.

DEDE

Mais história – Ao retomar o ritual do cinema com sessões e oficinas de produção, o Cine Jardim remexe em antigos sonhos. Além das mitológicas salas hoje quase esquecidas, nos anos 1960 a cidade serviu de cenário para a produção de “O último cangaceiro” (1971), de Carlos Mergulhão, com Ari Severo e Fernando Spencer na equipe e elenco local. Diretor de “O Palavrão” (1976), Cleto Mergulhão almejou transformar sua cidade natal em um polo de produção.

Ao contrário da maioria dos eventos de cinema sediados no estado, viabilizados exclusivamente pelo fundo estadual de cultura (Funcultura), o Cine Jardim foi realizado com R$ 80 mil captados pelo mecanismo de renúncia fiscal da Lei de Incentivo à Cultura. Se aprovado pelo próximo edital do Funcultura, o festival apontará para um interessante modelo de sustentabilidade misto.

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Fachada do Cine São José durante a Mostra Pajeú de Cinema

Afogados da Ingazeira – De 14 a 16 de maio Afogados da Ingazeira assistiu a seu primeiro festival de cinema. Voltada para filmes feitos em Pernambuco, a Mostra Pajeú de Cinema montou uma programação que reúne os melhores filmes da recente produção. No futuro os responsáveis pelo evento, William Silveira e Bruna Tavares, pretendem ampliar a programação para outras cidades do sertão.

Realizado com recursos do Funcultura, é simbólico que a Mostra Pajeú tenha nascido no Cine São José, construído em 1942, um dos poucos cinemas de rua em funcionamento no país. Como grande parte de seus irmãos, ele está com o futuro comprometido por não operar com projeção digital. Soluções precisam ser pensadas com urgência.

Ao tomar conhecimento da situação do São José, o professor João Luiz Vieira escreveu o seguinte; “essa verdadeira joia do sertão pernambucano precisa ser preservada a qualquer custo. Pode virar atração turística no estado e tornar-se auto sustentável, fácil”.

Enquanto isso, iniciativas como a Mostra Pajeú e o Cine Jardim apontam para caminhos possíveis, tanto para o renascimento dos cinemas de rua do interior, quanto para a visibilidade do cinema independente.

Olhar de Cinema anuncia programação

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Jacques Tati. Elia Kazan. Roberto Rossellini. Nicholas Ray. Hayao Miyasaki. Apenas estes nomes seriam suficientes para qualquer cinéfilo que se preze migrar para Curitiba entre 10 e 18 de junho. Nessas datas acontece o 4º Olhar de Cinema, um dos melhores festivais do país. A programação completa foi anunciada nesta semana e traz, além de clássicos restaurados em DCP, filmes contemporâneos que clamam para serem descobertos. São 91 filmes de 32 países, maioria inédita no Brasil e, boa parte, na América do Sul. O filme de abertura será o português “Rabo de Peixe”, de Joaquim Pinto, figura de ponta do cinema autoral contemporâneo.

Entre os já exibidos está o longa mineiro “Ela volta na quinta”, de André Novais Oliveira. Lançado no último Festival de Brasília, o filme expõe uma abordagem das mais inventivas. Na busca de um sentido puramente cinematográfico, o diretor propõe à própria família que interprete uma família, promovendo um delicado equilíbrio entre ficção e realidade. Um dos principais nomes da nova geração de realizadores brasileiros, Novais neste momento embarca para o Festival de Cannes apresentar seu novo curta, “Quintal”, na Quinzena dos Realizadores.

Outro não-inédito (o único na mostra competitiva de longas) é “A misteriosa morte de pérola”, de Guto Parente, novo produto do coletivo cearense Alumbramento, outra fonte de renovação no cinema brasileiro. O filme foi lançado em novembro passado, no Janela Internacional de Cinema do Recife, evento cujo formato e vigor curatorial remetem a um novo circuito de festivais de cinema no país, da qual faz parte o Olhar de Cinema.

Cabe observar que, diferente do Janela e do Panorama Coisa de Cinema (Salvador), o Olhar é realizado dentro de um centro de compras, o Shopping Crystal, no complexo Espaço Itaú de Cinema. São três salas bem equipadas, em projeções simultâneas, dedicadas ao festival. O que poderia ser um problema – o opressor ambiente de shopping – sequer ameaça a atmosfera do festival. Pelo contrário, o movimento do público e convidados de todo o mundo ofusca e subverte o sentido original da locação.

Com nove títulos, a mostra oficial de curtas desperta interesse especial, pois a seleção foi feita pelo curador francês Bernard Payen, que até pouco tempo era responsável pela Semana da Crítica de Cannes e agora é um dos programadores da Cinemateca Francesa.

E por falar na França, de volta aos clássicos: uma retrospectiva de Jacques Tati precisa ser recebida com todo o entusiasmo: há muito o que aprender – e se divertir – com este mestre do cinema moderno. Além disso, há “Bang Bang” (Andrea Tonacci), “Johnny Guitar” (Nicholas Ray), “Meu Amigo Totoro” (Hayao Miyazaki), “Sindicato De Ladrões” (Elia Kazan), “Stromboli” (Roberto Rosselini), “Orfeu” (Jean Cocteau).

Esta é apenas uma parte de uma seleção desafiadora e incomum, que quebra com a lógica viciada do circuito comercial e abre a possibilidade de acessar e discutir filmes que, de outra forma, provavelmente não seriam exibidos em Curitiba. Programação, seminários, oficinas e demais atividades podem ser acessadas no site www.olhardecinema.com.br.